Carta aos clientes – Diante do Infinito: Pensar diferente em momentos de transição

14 abr 2026

A imensidão do universo — lembrete permanente de escala e humildade.

A imensidão do universo — lembrete permanente de escala e humildade.

Prezados investidores,

A imagem acima é um fragmento do universo. Galáxias enroscadas em espirais, bilhões de estrelas, distâncias que a mente humana não alcança. A luz que chega até nós partiu dessas estruturas há milhões de anos, de modo que olhar para o céu é, literalmente, olhar para o passado. Diante dessa escala, a pergunta que sempre retorna é a mesma, e é uma pergunta antiga: diante de tanta grandeza, o que é o barulho dos nossos dias?

O primeiro trimestre de 2026 foi, em muitos sentidos, um trimestre de barulho. Guerras que não cessam, tensões geopolíticas que mudam de forma a cada semana, ameaças tarifárias que vão e vêm, decisões judiciais que redesenham agendas comerciais entre potências. Acompanhando o noticiário diariamente, é difícil não se perguntar: para que tudo isso? Que significado carrega essa agitação humana quando medida contra a escala silenciosa do cosmos?

Pascal, no século XVII, escreveu uma frase que atravessou os séculos: “o silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora”. A vertigem que o filósofo descreveu ao contemplar o céu noturno não era apenas medo — era a consciência aguda de uma desproporção. O infinito acima, a fragilidade humana abaixo. E foi justamente dessa consciência, ao longo da história, que nasceram algumas das melhores disciplinas intelectuais: a astronomia como exercício de humildade, a filosofia como exercício de proporção, a ciência como exercício de paciência diante de fenômenos que levam gerações para serem compreendidos.

Não trazemos essa reflexão por um exercício de contemplação vazia. Trazemos porque acreditamos que a humildade diante do que não controlamos é, paradoxalmente, uma das disciplinas mais úteis ao investidor. Quem aceita a própria pequenez diante do universo aprende com mais facilidade a aceitar a própria pequenez diante do mercado — e, com isso, passa a se concentrar no que de fato está sob sua influência: o processo, a disciplina, a paciência e a convicção nas teses construídas ao longo do tempo. O cosmos nos lembra que o curto prazo é, quase sempre, uma ilusão de ótica. E que a história recompensa aqueles que conseguem pensar em escalas maiores do que o próximo trimestre.

Uma fotografia de 1927

Conferência Solvay, Bruxelas, outubro de 1927.

Conferência Solvay, Bruxelas, outubro de 1927.

Em outubro de 1927, um grupo extraordinário de cientistas reuniu-se em Bruxelas para discutir um tema que parecia, até então, quase impossível de compreender: a natureza fundamental da realidade. Einstein, Bohr, Planck, Marie Curie, Heisenberg, Schrödinger, Dirac — os maiores intelectos de uma geração, sentados lado a lado para debater os fundamentos da mecânica quântica. A fotografia daquele encontro se tornaria uma das imagens mais famosas da história da ciência. Curiosamente, aquele momento de efervescência intelectual ocorreu apenas dois anos antes da crise de 1929 e da Grande Depressão — um dos eventos mais marcantes da história econômica moderna.

Não há relação causal entre os dois eventos, evidentemente. Mas a coincidência carrega um simbolismo que nos parece útil lembrar hoje: momentos de grande incerteza frequentemente antecedem momentos de grande transformação. E as transformações mais profundas raramente nascem do consenso. Nascem da disposição de questionar premissas quando o resto do mundo está ocupado repetindo certezas. A história da ciência e a história dos mercados compartilham, nesse sentido, uma mesma estrutura profunda: o progresso pertence a quem consegue pensar diferente quando pensar igual seria mais confortável.

“O progresso pertence a quem consegue pensar diferente quando pensar igual seria mais confortável.”

O ambiente do trimestre

Feita essa moldura, descemos agora do plano cósmico para o plano trimestral — sem perder de vista que um é apenas uma versão comprimida do outro. O pano de fundo macroeconômico do primeiro trimestre de 2026 testou, e continua testando, a paciência da indústria de fundos de ações no Brasil. A Selic segue em 14,75%, com inflação corrente entre 4% e 5% — o que coloca o juro real brasileiro entre os mais elevados do mundo. Esse patamar pressiona, de forma direta, diversas teses de renda variável, em especial aquelas ancoradas em empresas menores, mais sensíveis ao ciclo e ao custo de capital. Em um ambiente em que a renda fixa oferece retornos reais de dois dígitos, competir por capital com ações exige convicção, seletividade e muita disciplina.

Ao mesmo tempo, e talvez esse seja o sinal mais importante do trimestre, o fluxo estrangeiro para a B3 vem se intensificando de forma notável. O investidor não residente acumulou entradas expressivas ao longo de 2025 e começou 2026 com o maior fluxo mensal dos últimos anos. Em janeiro, o capital estrangeiro sozinho sustentou a bolsa brasileira enquanto o institucional local seguiu em resgate. Não é a primeira vez que vemos esse padrão. Historicamente, os investidores globais costumam chegar antes do investidor local — precificando, com antecedência, ciclos que ainda não são consensuais internamente. É um presságio que merece atenção.

As razões para esse movimento são conhecidas: rotação global saindo dos Estados Unidos, múltiplos do Ibovespa em um desvio-padrão abaixo da média histórica, dólar enfraquecido e, principalmente, a expectativa de que o ciclo de aperto monetário no Brasil esteja próximo do fim. O DI futuro já recuou de 15,9% para 12,7% ao longo de 2025, antecipando cortes que ainda não começaram. Vale lembrar um dado que consideramos particularmente eloquente: historicamente, para cada 1% de corte na Selic, o índice de small caps subiu, em média, 11,5 vezes — contra 6,4 vezes do Ibovespa. Não é garantia de nada, mas é um lembrete poderoso de onde costuma estar a assimetria quando o ciclo vira.

“Historicamente, os investidores globais chegam antes do investidor local — precificando, com antecedência, ciclos que ainda não são consensuais internamente.”

O que vem funcionando

Em meio a esse ambiente exigente, várias estratégias da casa vêm apresentando resultados que gostaríamos de destacar. Não porque acreditemos que performance de curto prazo seja o que define uma gestora, mas porque esses resultados ilustram a diversificação que construímos nos últimos anos e a profundidade do nosso processo de análise.

O Trígono Dynamic, nossa estratégia long biased com flexibilidade para capturar assimetrias no Brasil e no exterior, segue como um dos grandes destaques da casa. Nos últimos 12 meses, acumulou retorno de +87,2% contra +49,9% do Ibovespa — um alpha de 37 pontos percentuais. Desde seu início, em março de 2021, o fundo acumula +431% contra 67% do Ibovespa. O Trígono Parthenon, nossa estratégia de mid e large caps, vem entregando consistência acima do Ibovespa: no ano, +22,2% contra +16,8% do índice, e nos últimos 12 meses +55,0% contra +49,9%. O Trígono 70 Prev, nosso fundo de previdência em parceria com o BTG Pactual, acumula 213% do CDI no ano e 143% do CDI em 12 meses, reafirmando a qualidade da gestão previdenciária que construímos. O Trígono Horizon Microcap, um dos produtos mais diferenciados da casa e praticamente único no Brasil em seu segmento, acumula +42,9% em 12 meses contra +27,9% do SMLL, capturando assimetrias relevantes no universo das menores empresas listadas. E o Trígono Power & Yield, nosso fundo dedicado à cadeia de energia, vem superando seu benchmark de forma expressiva: +26,2% no ano contra +9,4% do IEE, e +83,3% em 12 meses contra +56,4% do índice.

Não listamos esses fundos para celebrar um trimestre. Listamos porque eles representam, juntos, a evolução de uma casa que deixou de ser associada a uma única estratégia e hoje opera com múltiplos mandatos, equipes dedicadas e processos integrados. A diversificação que buscamos construir ao longo dos últimos anos começa a se traduzir em resultados que conversam com os diferentes perfis dos nossos investidores — e isso nos dá confiança para o que vem pela frente.

Um compromisso que poucos sustentam

Acabamos de publicar nosso quinto Relatório de Sustentabilidade — um documento extenso, com análise individualizada das 12 principais empresas investidas, que juntas representam 85% dos nossos ativos em renda variável. Cobrimos governança, dimensões sociais, gestão ambiental e pegada de carbono, empresa a empresa. Não temos conhecimento de outra gestora brasileira que produza um relatório de sustentabilidade com essa profundidade e essa regularidade.

Destacamos esse ponto por uma razão específica. Em muitas partes do mundo, e mesmo entre gestoras globais de grande porte, o tema ESG vem sendo discretamente abandonado sob a pressão de retornos de curto prazo e ventos políticos contrários. Discursos que pareciam firmes se mostraram, em alguns casos, pouco mais do que retórica. Nós seguimos em sentido contrário — não por ativismo, mas por convicção de que governança, relação com stakeholders e responsabilidade ambiental são, no longo prazo, vetores relevantes de geração de valor. Somos signatários do PRI desde 2023, mantemos rating MQ2.br pela Moody’s, e ao longo dos últimos 8 anos nossa equipe de gestão elegeu mais de 160 conselheiros independentes em empresas investidas. Engajamento construtivo, para nós, é método de trabalho.

“Não listamos esses fundos para celebrar um trimestre. Listamos porque eles representam a evolução de uma casa que hoje opera com múltiplos mandatos e resultados que conversam com diferentes perfis de investidores.”

O que vem pela frente

Olhamos para o restante de 2026 com a mesma humildade que nos ensina a imagem do cosmos — sabendo que não controlamos o curto prazo — mas também com confiança no processo, nas teses que construímos e na qualidade do portfólio que hoje temos sob gestão. Encontramos diversas empresas negociando a múltiplos que refletem cenários excessivamente pessimistas, e acreditamos que as posições que estamos construindo agora podem gerar retornos relevantes ao longo dos próximos três anos.

Os melhores investimentos raramente são feitos em momentos de conforto. Eles são construídos quando o mercado está distraído ou excessivamente pessimista, e quando a disciplina do investidor consegue resistir ao ruído de curto prazo. Esse é, em essência, o nosso trabalho.

Nesta edição, nosso CIO Werner Roger nos brinda com uma resenha particularmente especial, na qual estabelece um diálogo entre o jogo de xadrez e a prática de investir. É um texto erudito e pessoal, que conecta Kasparov, a tradição indiana do Chaturanga, a entropia de Shannon e as lembranças do avô de Werner, que foi árbitro do Campeonato Mundial de Xadrez de 1929 em Heidelberg. As lições do xadrez que Werner extrai — paciência, visão de várias jogadas à frente, coragem para reconhecer erros, disciplina para não trocar de estratégia a cada movimento do adversário — conversam diretamente com o espírito desta carta. Recomendamos sua leitura como complemento essencial a estas reflexões.

Agradecemos, como sempre, a confiança depositada em nosso trabalho. Seguimos disponíveis para conversar e prestar contas sempre que julgarem oportuno.

Frederico B. Mesnik
CEO
Trígono Capital

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