Palavra do Gestor. Novo Ano, mesmos desafios: energia e sangue-frio são os pré-requisitos. Bem-vindo, 2025!

7 jan 2025

Prezados investidores,

Vamos abrir o ano já com mudança boa. Os mais assíduos dentre o nosso leitorado já terão provavelmente percebido alguma coisa do que trouxemos de novidade – e para os novos leitores, já começam com a nova estrutura.

E é justamente isso: mudamos a estrutura do documento. E junto vem uma repaginada (sem trocadilho) que vai deixar a leitura mais fluída e dinâmica.

E que nova estrutura é essa?

A partir deste mês, nossa resenha será dividida em três partes. A primeira parte será a Palavra do Gestor – cuja proposta já vem bastante explícita no próprio nome. É o texto que abre nossas conversas mensais – um ponto de vista sobre a conjuntura, avaliada a partir da visão deste que vos escreve, que já tem um longo tempo de estrada, de janela, de banco de praça; que, como diz a expressão em inglês já traduzida, já deu algumas voltas no quarteirão do mercado.

E o céu é o limite para o que vai ser a conversa. Tá, o limite não precisa ser o céu, porque temos todos rotinas bem atarefadas. Mas vamos buscar sempre um tema de cunho mais técnico, perspectivas, estratégia de gestão; ou mais comportamentais, levando em conta que somos esses bichos humanos que têm emoções, sentimentos, desejos e vontades, medos, raivas, impulsos e pulsões que (gostemos ou não) pesam, sim, na hora de investir.

A realidade nos traz a pauta – e, a partir das configurações que o mundo assume, comentamos e debatemos, e procuramos um caminho. Se queremos que a realidade opere com um ajuste mente/mundo, temos que entender que o ajuste mundo/mente vem antes. O conhecimento começa com a experiência, mas não vem todo da experiência.

Werner, mas, assim – Kant, já no começo do ano? Pega leve, por favor. Tem dó.


A segunda parte será o Desempenho Mensal: nome já também bastante intuitivo, aqui faremos uma retrospectiva dos fundos no mês imediatamente anterior. É aqui que explicamos o que aconteceu de forma mais geral, que mostramos a atribuição de performance dos diversos setores, e sempre que for o caso, comentários detalhados sobre uma ou outra (ou outras) empresas. Esta será divulgada em uma publicação separada – atendendo diretamente investidores e potenciais investidores. Para estes últimos, o Desempenho Mensal traz, de forma mais imediata, informações cruciais para entender o que se passa, que fatores influenciam/influenciaram o desempenho dos fundos.


A terceira parte será a combinação Conjuntura Nacional/Conjuntura Internacional. Terá frequência trimestral. Também incluirá a Palavra do Gestor de Crédito.

A escolha pela avaliação trimestral exige um comentário, à guisa de justificação. Teremos um ano carregado de acontecimentos, é o que tudo parece indicar – a começar da posse de Donald Trump como presidente dos EUA no próximo dia 20. O noticiário, nas muitas plataformas em que acontece, tem cada vez mais se movido a velocidades e em volumes que desafiam a capacidade de qualquer um acompanhar, mesmo de leve. Medidas, decisões – governamentais, judiciais, empresariais –, ocorrências diversas (guerras, eventos esportivos globais, encontros), nossos celulares/tablets/smartwatches/laptops não param de apitar avisando que chegou informação nova – e a cada uma que chega, tem-se a sensação de que se sabe cada vez menos o que está acontecendo. Avaliar cenário a cada três meses permite juntar peças que vão se aproximando aos poucos e ver um quadro um pouco mais coerente; permite dispensar aquilo que parece tão relevante, mas que passa rápido, produto perecível e não deixa traço.

Lembremos aqui de John Marks Templeton (a quem dedicamos uma Resenha em março de 2024): nos anos 1960 ele se mudou para Nassau (Bahamas) para ficar longe da barulheira de Wall Street – e dizem que a grande vantagem que ele tinha sobre quem continuava lá era receber o “The Wall Street Journal” com uma semana de atraso. Esse intervalo dava a ele tempo para avaliar o que era racional e o que era irracional, depois que baixava a poeira levantada pelas “notícias quentes” do mercado. Avaliar o cenário daqui e d’alhures a cada três meses equivale a pensar com a cabeça fria, observando e entendendo as coisas em seus desdobramentos. Investir é algo que se faz com paciência e cérebro – não com pressa e tripas.

A divisão, enfim, entrega a cada investidor a informação e os insights na medida de suas necessidades. Cada documento tem um propósito, e o investidor/leitor poderá encontrar em cada um mais e mais informação, à medida em que achar necessário consultá-los.

As mudanças vêm também porque o mote que nos inspira – Além do Óbvio – nos leva a trabalhar para superar as expectativas. Nossa pesquisa junto aos leitores mostrou que a Resenha tem conquistado um público leitor cada vez mais amplo e satisfeito. Sugere que estamos acertando, mas acertar não é o bastante. Nosso desejo é sempre evoluir e melhorar.


Vamos fazer agora um pequeno “Nos episódios anteriores” – uma breve retrospectiva da Trígono em 2024; e em seguida, um pequeno “Cenas dos próximos capítulos” – como estamos posicionados para 2025:

– Encerramos 2024 com R$ 2,73 bilhões em ativos sob gestão, ante R$ 3,23 bilhões em 2023, explicado por resgates líquidos de R$ 148 milhões e desvalorização dos ativos de R$ 352 milhões, ou seja, os regates corresponderam a 4,6% dos ativos sob gestão no final de 2023. Mas o mais importante: quando consideramos os ativos médio sob gestão, houve um aumento de R$ 39 milhões em 2024, R$ 2.644 milhões, ante R$ 2.605 milhões em 2023, e já iniciamos 2025 com R$ 90 milhões acima da média do ano passado, mesmo em cenário bastante desafiador.

Nossos fundos estão distribuídos em: renda variável (79%); previdência (17%); e crédito (4%). E estes são distribuídos por: plataformas digitais e assessores (43%), investidores institucionais (38%), fundos de fundos (12%), wealth/family offices (4%) e proprietário (3%). Apesar da queda dos ativos sob gestão – reflexo principalmente da desvalorização dos ativos de renda variável –, acreditamos que o recém-encerrado ano foi relativamente positivo. Nossa concentração em small e micro caps teve impacto sobre o desempenho dos fundos, mas as empresas apresentaram bons resultados e esperamos um ano positivo para elas em 2025, conforme explicaremos mais à frente.

O índice SMLL se desvalorizou 25%: contaminou todo o segmento e tornou o mercado disfuncional. Dados da ANBIMA mostram que o segmento Fundos de Ações/Categoria Gestão Ativa viu uma redução de 28,2% (de R$ 37,3 bilhões para R$ 26,8 bilhões) no patrimônio consolidado no período nov./23-nov/24; já no segmento small caps, a queda foi de 33,3% (R$ 4,8 bilhões para R$ 3,2 bilhões), mesmo período. No segmento dividendos, a redução foi de 6,5% (de R$ 10,7 bi para R$ 10 bi). Nossos fundos estão distribuídos entre micro caps (35%), empresas com valor de mercado até R$ 3 bilhões, small caps (46%), de R$ 3 até R$ 10 bilhões, mid caps (6%), de R$ 10 até R$ 30 bilhões, e large caps (14%), acima de R$ 30 bilhões.

– Mudança de escritório: em março, triplicamos a área útil disponível. Mais espaço, equipe mais confortável, mais visitas e reuniões, mais crescimento – o ciclo virtuoso é claro. Investimos em mais espaço e funcionalidade, além do conforto para nossa equipe e visitantes porque confiamos em nosso crescimento. Temos agora o dobro de estações de trabalho, um estúdio próprio – onde fazemos nossas lives e realizamos diversos eventos –, uma copa com refeitório, área de descompressão e outras facilidades; quase um home away from home;

– O número de colaboradores da equipe, incluindo sócios, passou de 27 para 32, sendo 8 mulheres, 25% da equipe. Mesmo com a redução dos ativos sob gestão, houve um crescimento de 18,5% no número de pessoas que integram nossa equipe e, em janeiro, mais duas contratações aumentam para 34 o número total de profissionais. Todas as áreas têm agora mais pessoas, o que oferece atendimento e gestão de melhor qualidade – incluindo aí os serviços de comunicação e relação com investidores, risco e compliance, e gestão;

– Comunicação e Relação com Investidores: fizemos 46 lives, 35 podcasts cerca de 407 posts (LinkedIn, Instagram e Facebook), e mais de 700 matérias, entrevistas e citações em mídias especializadas em investimentos. Tudo isso para proporcionar a máxima visibilidade de nossa gestão e o mais claro entendimento de nossas estratégias. Para atender assessores e plataformas digitais, foram realizadas 538 reuniões com investidores, 38 road-shows, 100 visitas presenciais em 15 estados. Q institucionais, Family offices/Wealth Management, Asset Management, Fundos de Pensão e Regimes Próprios de Previdência Social, foram realizadas 400 reuniões. O nome do jogo é Transparência e Proximidade.

– A Moody’s reafirmou nosso rating de qualidade de gestão em MQ2. Buscamos, no entanto, o MQ1 – o Graal, o Grande Prêmio. Diversificamos produtos e receitas, e fortalecemos de forma contínua nossa equipe em busca disso. Bons alunos, nós somos: merecemos a estrelinha dourada no caderno;

– Estreitamos relacionamento com parceiros que intermedeiam a distribuição com investidores – em particular o Banco do Brasil e a BB Asset Management. Atualmente temos 46 parceiros a distribuir nossos fundos, 3 novos em 2024;

– Reformulamos nosso site: navegação e acesso a informações ficaram mais fáceis. E reformulamos nossa marca, para “personificar” a evolução de nossa gestora;

– Last, but not least: publicamos nosso Relatório de Sustentabilidade, no qual o leitor encontra nossas práticas ESG/ASG e investimentos responsáveis. Reportamos nossa avaliação das principais empresas investidas nos aspectos sociais, ambientais e de governança, além dos dados apresentados por elas mesmas. Mais uma vez: o nome do jogo é Transparência e Proximidade – e o sobrenome, neste caso, é Ativismo Construtivo. A Trígono indicou, e foram eleitos, 27 conselheiros de administração e fiscal em 11 empresas. Além disso, solicitou e conseguiu instalar dois conselhos fiscais. Importante: os conselheiros indicados e eleitos não possuem relação com a Trígono, são conselheiros das empresas, com qualificações como ex-executivos, inclusive ex-CEOs, e ampla experiência em conselhos e que contribuam efetivamente para a governança e criação de valor aos acionistas, todos os acionistas, e não particularmente para a Trígono.


Pois bem, feito esse breve sobrevoo e prestação de contas, entremos no tema principal da resenha: o que esperar para 2025.

O ano começa não muito diferente de 2024. O que houve é que em 2023 vimos um mercado anormalmente otimista – e por causa disso, o final do ano passado só podia ter sido o azedume e as caras enfarruscadas que vimos. Esse azedume vazou para 2025. Não deixa de ter um lado positivo, no entanto: ranzinza e ressentido como foi o mercado no ano passado, como diz o hit da cantora Yazz, sucesso do fim dos anos 1980, the only way is up. Tá, não é bem assim – mas é muito mais fácil que o desenrolar de 2025 ajude a adoçar um pouco a vida de alguns ranhetas mais incorrigíveis.

Correndo o risco da repetição, vênias pedidas já aos leitores mais assíduos: nas dificuldades é que surgem as maiores oportunidades. Isso é assim, claro, para aqueles que sabem identificar essas oportunidades e delas tirar proveito. O caminho é investir em excelentes ativos a preços que refletem grande pessimismo com a economia. Com o PIB crescendo 3,5% (uma das taxas mais altas do G20), a economia flui: o ambiente de pessimismo não está se traduzindo em perdas para todos os setores e empresas. Investimos em empresas, não em mercados. É esse, no entanto, que precifica os ativos. Arbitrar ineficiências e pessimismo (que anda exagerado, diga-se logo tudo) do mercado é o nosso papel.

Difícil e desafiador foi o ano de 2024, sem dúvida. Abrimos aquela volta ao redor do Sol com a Resenha Ano do Dragão, na China e no Brasil, desafios e oportunidades. Bem-vindo a 2024! O Ano do Dragão, aliás, termina só no próximo dia 28. Está, portanto, ainda em curso.

Para os mais curiosos e que acreditam na astrologia: o ano novo chinês em 2025 é o Ano da Serpente. Na Grécia Antiga, a serpente era símbolo da medicina – abaixo vai a imagem do caduceu de Asclépio, o deus da cura/medicina na mitologia grega, quem sabe cure nossa economia. Seu nome foi invocado na última manifestação de Sócrates antes que a cicuta que fora condenado a beber completasse o efeito. Os momentos finais do diálogo “Fédon”, de Platão, aliás, são uma leitura desconfortável; a passagem já quase no encerramento é particularmente tensa:

Já se lhe tinha esfriado quase todo o baixo-ventre, quando,
descobrindo o rosto (pois o havia tapado antes), disse, e foram suas últimas palavras:
“Críton, devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida!”.
“Assim farei”, respondeu Críton. “Vê se queres dizer mais alguma coisa.”
A essa pergunta já não respondeu. Decorrido mais algum tempo, deu um estremeção.
O homem o descobriu; tinha o olhar parado. Percebendo isso, Críton fechou-lhe os olhos e a boca.

A oferenda do galo a Asclépio é pano para outra manga.

A serpente é ainda sinônimo de sabedoria, estratégia e intuição – sagacidade, para tomar decisões rápidas e eficazes. Habilidade que os médicos precisam ter muito bem exercitada.

A serpente está associada à riqueza e fortuna em diferentes culturas. No Brasil, por exemplo, há uma relação com Oxumarê – divindade de origem africana ligada à prosperidade e à renovação.

Curiosidade: o número 9 representa o final de um ciclo (de 1 a 9). Na Bíblia representa o Juízo; na China, a longevidade. 2025, escrito como a soma de seus algarismos (2+0+2+5), totaliza 9. Assim, na astrologia chinesa, 2025 é visto como um ano de sorte porque marca, de certa forma, um recomeço: é o ano que se segue ao encerramento de um ciclo. Ocasião para recomeçar com força e esperança, superar tempos difíceis. Pouco mais tem tanto a ver com investimentos. Que a Serpente nos traga em 2025 tudo que ela representa de positivo.

Realmente, desafio é o que não faltou em 2024 – mais ainda na área econômica. O cada vez mais preocupante risco fiscal foi tema dominante em 2024 – e ainda não deixou de ser. Essa percepção de risco se agudizou no fim do ano passado e fez o mercado de juros futuros e o câmbio espiralarem – o dólar bateu vertiginosos R$ 6,30 e exigiu do BC atuação muito forte para conter uma escalada ainda maior.

Câmbio, já tivemos ocasião de ressaltar isso, é o termômetro da desconfiança e aversão a risco do mercado. Funciona, para abusar um pouco da representação imagética, como a válvula de uma panela de pressão. A moeda norte-americana é buscada como proteção – e as empresas (e investidores) tendem a remeter mais dessas divisas para fora em momentos de incerteza. Isso é até de certa forma rotineiro em fim de ano: é época de empresas estrangeiras que aqui operam mandando para as matrizes os recursos auferidos, reforçando caixas por lá. E se antecipando ao aumento de tributação para as multinacionais.

Desde o início da Trígono, em 2017, já tínhamos o dólar como hedge para incertezas da economia – via relação da moeda com negócios e fundamentos das principais investidas. O dólar é o hedge de todos os hedges. Pouco mudou desde então (mesmo com duas eleições presidenciais, reforma previdenciária, pandemia, risco fiscal e outros fatores que encontramos pelo caminho).

Embora possa parecer uma abordagem top-down (ou seja, de natureza macroeconômica), na realidade nossa postura é de cautela – e tirar vantagem de oportunidades geradas na crise. Incertezas políticas e econômicas viram moeda local depreciada, no Brasil e em qualquer economia; as exportadoras, no entanto, tendem a ser favorecidas, uma vez que suas receitas são associadas à moeda estrangeira (direta e indiretamente).

Tá, ok – mas Werner, e se o real se apreciar?

Pergunta frequente entre os que questionam essa estratégia. A resposta é: ora essa, melhor ainda!

Moeda apreciada é economia indo bem – ou um forte indício disso. É custo de capital em queda, inflação e juros idem e fluxo de capital estrangeiro positivo. Tudo isso é efeito de valorização da nossa moeda. Nessa situação, a bolsa deveria subir – o que permitiria ajustar carteiras para a dinâmica positiva do mercado. Mesmo com receitas relacionadas ao câmbio, as empresas têm negócios no país. Eis aí então um duplo hedge – via câmbio e via dinâmica da economia, com a bolsa se valorizando graças ao fluxo positivo. Todo mundo ganha.

Como a conversa aqui escorregou para o top-down, trazemos mais uma vez evidências de como é inútil se posicionar nas expectativas do mercado. Infelizmente o Banco Central acaba sendo guiado pelo mercado – que o faz de refém, ao invés de bússola. A autoridade monetária acaba ficando só no nome, sem força para controlar expectativas de mercado e inflação.

Senão, vejamos previsões do boletim FOCUS do fim de 2023 e de 2024:

Boletim FOCUS 29/dezembro/2023

Fonte: BC

Boletim FOCUS 30/dezembro/2024

Fonte: BC

IPCA 2024: tendo o IPCA-15 como base, a 4,71% (ou 4,9% na última projeção do FOCUS), o IPCA está entre 0,81 p.p. e 1 p.p. acima dos 3,90% esperados para 2024. Lembrando: a meta de inflação do BC para 2024 e 2025 é de 3%, com banda de flutuação de 1,5 p.p. para cima ou para baixo. Portanto, a inflação está entre 0,21 p.p. e 0,40 p.p. acima do topo da banda de flutuação. O IPCA cheio para o ano ainda não foi divulgado. Em dezembro do ano passado, o IPCA-15 atingiu 0,34% – contra 0,40% de um ano antes. O grupo “Alimentação e Bebidas” marcou alta de 1,47% no IPCA-15 em dezembro de 2024 e de 8% em 12 meses – o que impactou o índice em 0,32% e 1,68%, respectivamente. Foi, sem margem para dúvida, o grande vilão da inflação. A Selic pode fazer algo aí, especialmente com o câmbio como formador de custos e preços desses dois itens – mas não só?

PIB Total: no acumulado de janeiro a setembro de 2024, o PIB cresceu 3,3% sobre igual período de 2023. No 3T24 apenas, o crescimento foi de 4% sobre o 3T23. Principais variações: Agropecuária (-3,5%); Indústria (3,5%); e Serviços (3,8%). Para 2024, o BC vê crescimento de 3,5% (o FOCUS terá errado em 2 p.p. se a previsão do BC, de 3,5% para cima em 2024, se concretizar).

Câmbio: R$ 6,19 – alta de 27,5% no ano (R$ 4,85 em 30/12/23). Neste caso, um erro de R$ 1,16 – expressivos 23%. O câmbio, lembremos, influi na inflação e nos juros – e nos resultados de empresas (para o bem e para o mal), além da balança comercial.

Selic: hoje em 12,25% – expressiva diferença de 3 p.p. (ou erro de 32,4%). Também o juro básico, como o nome já sugere, tem graves implicações sobre a economia – e sobre as empresas dos mais diversos setores. Para 2025, o FOCUS projetava 8,5% e IPCA de 3,5% (ou seja, uma taxa real de juros de 5%). Atualmente já há quem veja a Selic em 14,25% e mesmo em 15%. Considerando o IPCA de 4,96% do Focus para 2025, isto representa juro real de cerca de 10%. Não nos parece razoável: um juro desse tamanho é insuportável para qualquer economia. Não tem paralelo no mundo, tendo em vista os custos para Tesouro e dívida pública. Em praticamente todas as economias, os respectivos BCs estão reduzindo as taxas de juros, mesmo com a inflação acima do desejado. Ainda que tenhamos inflação de 5% em 2025, o BC causará maior prejuízo à economia e vai atiçar ainda mais o risco fiscal (como veremos abaixo) se seguir nessa trilha malograda de jogar todo o custo no colo do Tesouro Nacional e na sociedade. Primeiro, baixou os juros de forma inadequada; agora, tenta compensar elevando a Selic de forma estabanada. Dois erros não fazem um acerto. Alguém precisa lembrá-los disso por lá.

IGP-M: 6,54%, ante 4,07% do Focus – erro de mais de 2,5 p.p. (e 61,5% acima das expectativas do mercado). Porque aluguéis, serviços e contratos são indexados pelo IGP-M, um erro desse tamanho faz um tremendo estrago. Contamina ainda o IPCA nos meses seguintes. A taxa de câmbio também tem um efeito relevante na formação do IGP-M.

Saldo Conta Corrente: US$ 52,4 bilhões nos 12 meses até nov./24 – e US$ 46,8 bilhões acumulados no ano (até novembro). Para 2024 como um todo, projeta-se US$ 40 bilhões.

Balança Comercial: saldo positivo de US$ 71,2 bilhões até a 3ª semana de dezembro – o que já é cerca de US$ 4 bilhões a mais que o estimado no FOCUS. A desvalorização do real deverá favorecer o aumento do saldo comercial em 2025 – e ainda há a taxação de bens de pequeno valor – o infame “imposto da blusinha”, de 20% sobre bens com valor até US$ 50.

Investimento direto no país: US$ 5,7 bilhões em outubro, acumulando US$ 66 bilhões em 12 meses (o que são US$ 4 bilhões abaixo do projetado no FOCUS).

Dívida líquida do setor público (% sobre o PIB): 62,1% até outubro, um aumento de 1,2 p.p. no ano. O principal componente negativo nisso é o impacto nos juros nominais (+6,6 p.p.); na contramão, o efeito positivo veio no crescimento do PIB nominal (-3,3 p.p.). O aumento da Selic deve contribuir negativamente para o aumento no próximo ano.

Resultado primário e nominal (% do PIB): -1,9% e -9,5%, respectivamente, nos 12 meses até out/24. Em relação ao déficit nominal, o item juros representou 7,6% dos 9,5%, e a tendência é ascendente (foram 5,8% em 2022; 6,6% em 2023), devido ao aumento da dívida mobiliária e das taxas de juros. A DLSP (Dívida Líquida de Setor Público) atingiu R$ 7,1 trilhões em outubro (62,1% do PIB), aumento de 1,2 p.p no ano (com maior impacto dos juros). A DBGG (Dívida Bruta do Governo Geral), incluindo governo federal, INSS, estados e municípios, atingiu R$ 9 trilhões (78,6% do PIB), alta de 4,2 p.p, no ano. Reflexo, entre outros fatores, da incorporação dos juros na dívida (rolagem). O mercado se preocupa com o déficit primário, mas o carrego da dívida associado aos juros são os principais fatores da deterioração do risco fiscal. É por esse motivo que o mercado acha que o risco é tal que, para valer a pena o risco, são necessários juros cada vez mais altos e o BC segue como refém dessa lógica.

A indexação da economia é um alvo tradicional já das nossas críticas. Juros podem pouco (na prática, podem nada mesmo) contra preços indexados. O IGP-M sofre efeitos dos preços das commodities e do câmbio – e aí o cidadão que aluga um quarto conjugado com cozinha e nunca viu uma pelota de minério de ferro na vida acaba pagando mais caro. Os preços de aço, soja, proteínas e minério de ferro impactam tarifas e contratos que nada têm a ver com eles. Veja-se o IPCA-15 de dezembro: carnes e óleo de soja representaram quase toda a inflação mensal. Não há inflação de demanda – contra a qual juros são, sim, remédio eficaz. Mas, para a inflação de limitação de oferta (afinal, quem investe em produção com juro proibitivo?), associada ainda ao câmbio (sobre o qual o BC não tem controle, o que ficou óbvio no caso do dólar já flertando com R$ 6,20), o efeito do juro está como aspirina para tratar a gripe ou vírus da influenza.

O esforço do BC para conter a inflação através de juros (e a meta estourou em três dos quatro últimos anos) onerou o Tesouro Nacional e a dívida pública – como ficou acima demonstrado. E não fez a inflação convergir para a meta.

Na tabela a seguir se vê alguns indicadores econômicos de economias do G20, e aí não tem como não ver o quanto o juro real brasileiro se destaca. Em relação à dívida pública, as demais economias (exceção feita ao México) têm níveis elevados em relação ao PIB. O problema de fato não é a dívida: é o seu custo e a incorporação dos juros à própria dívida.

O poder de antever elementos macroeconômicos e as ações do Executivo e do Legislativo para melhorar as contas públicas seria a ferramenta mais poderosa para atuar no mercado. Infelizmente, não a temos – pelo trivial e prosaico motivo de que ela não existe. Nem o mercado – como bem se viu nas suas projeções amplamente falhas, registradas no boletim FOCUS.

O mercado tenta compensar essa carência com “estratégias” mirabolantes, palpites exóticos e sabe-se lá o que mais. Na Trígono, o que fazemos é observar as perspectivas setoriais e que impactam as empresas – sempre fundamentadas em questões econômicas já estabelecidas ou em curso e que não dependem de BC nem de expectativas do mercado.

Perspectivas setoriais relacionados aos fundos sob gestão da Trígono:

  1. Agronegócio: a estimativa da Conab em 12/dez/24 para a safra 2024/25 de produção de 322,4 milhões de toneladas de grãos – o que é 8,2% a mais (ou 24,5 milhões de toneladas adicionais) sobre a safra 2023/24. A área plantada de 81,4 milhões de hectares é 1,8% maior – produtividade e clima favorável no atual ciclo explicam a diferença. Além da quantidade maior de grãos, o setor deverá ser favorecido pela taxa de câmbio. Estimando uma taxa média de R$ 6,20 neste ano, o real terá desvalorização média de 15% sobre 2024 (R$ 5,39). Isso pode proporcionar um aumento de mais de 23% nas receitas de grãos sobre as da safra 23/24 (considerando-se preços médios – em moeda estrangeira – estáveis).
  2. Biocombustíveis: intimamente relacionado ao agronegócio, é um importante vetor de descarbonização e investimentos no país. Com oito leis aprovadas em 2024, os investimentos em bioenergia consolidam espaço na transição brasileira para os combustíveis renováveis e limpos. O Brasil é o país mais avançado nessas iniciativas. Os investimentos podem chegar a R$ 1 trilhão em dez anos. Destacamos os programas:

    • Aceleração de Transição Energética;
    • Mover-Mobilidade Verde;
    • Marco legal para o hidrogênio de baixo carbono;
    • Fundo Nacional de Aviação (que incentivará a produção do SAF); e
    • Programa de incentivos para o hidrogênio verde.

    O Fundo Clima, sob gestão do BNDES, será importante em iniciativas relacionadas à descarbonização. O Mover já levou a anúncios que somam R$ 130 bilhões em investimentos por parte das montadoras. Grande parte desse volume vai para tecnologia e novas motorizações – incluindo híbridos com etanol, motores 100% com etanol (inclusive máquinas agrícolas) e biometano. Ainda em 2025 será lançado o programa para novas tecnologias e descarbonização do setor marítimo. Neste início de ano a mistura de etanol à gasolina subirá de 27,5% para 30%. A mistura de biodiesel (que em março do ano passado subiu de 12% para 14%) subirá em março deste ano para 15%; e a mistura B20 subirá para 20% até 2030. Todos esses são vetores a promover descarbonização de veículos, crescimento do agronegócio e investimentos em bens de capital relacionados (logística, armazenamento, máquinas agrícolas e infraestrutura – portos, hidrovias e ferrovias).A produção de biocombustíveis no Brasil tem uma relação direta com o agronegócio e conversa com o item nº 1 acima. Partindo da cana-de-açúcar e do milho, insumos do etanol, da soja e da gordura animal, na produção de biodiesel. Segundo estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), ligada ao Ministério de Minas e Energia, nos próximos seis anos poderá haver investimentos da ordem de R$ 1 trilhão relacionados aos biocombustíveis e, desta forma, ao agronegócio com impacto indireto em vários setores. E ainda a energia de biomassa, incluindo bagaço de cana (já representa 5% da energia elétrica produzida no país) e transformação de dejetos animais e resíduos agrícolas como palhada e vinhaça, em biometano e fertilizantes organominerais, substituindo diesel e fertilizantes importados com enorme benefício ambiental e na balança de pagamentos, além de redução nos custos.

  3. Nova Indústria do Brasil-NIB: também conhecida como neo-industrialização, trata-se de programa do governo visando modernizar o parque industrial brasileiro. Tais programas trarão incentivos fiscais compreendendo 18 nichos industriais (vide Resenha Mensal de Renda Váriavel de Outubro). O Plano Mais Produção (P+P) contará com R$ 406 bilhões, via Banco da Amazônia, BB, Banco do Nordeste, BNDES, CEF, Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial). Como fonte complementar de recursos, foi criada a LCD (Letra de Crédito de Desenvolvimento), com benefícios tributários semelhantes aos de LCA e LCI. As LCD serão emitidas no limite de R$ 10 bilhões por instituição por bancos de desenvolvimento, e isenção de imposto de renda (15%) para pessoas físicas.De olho em reduzir o “Custo Brasil” haverá investimentos em descarbonização, digitalização, exportações, inovação e produtividade – todos elementos fundamentais no ganho de competitividade do país. Destacamos ainda a Depreciação Acelerada e o Mover para subsidiar a NIB – que espera atingir R$ 1,6 trilhão em investimentos em mobilidade verde (Mover) e Cidades Sustentáveis até 2029. Incluídos aí estão mobilidade, moradias, infraestrutura e saneamento básico. A iniciativa privada deverá entrar com 75% dos recursos. Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base), CBIC (Câmara Brasileira da Indústria de Construção) e Abramat (Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção) apoiam o NIB e terão papel fundamental em sua execução (via empresas associadas).
  4. Fundo Clima: um dos instrumentos da Política Nacional sobre Mudança do Clima, tem a finalidade de garantir recursos para apoio a projetos ou estudos e financiamento de empreendimentos que tenham como objetivo a mitigação das mudanças climáticas. Com o BNDES como agente financeiro, as linhas de crédito apoiarão a implantação de empreendimentos, aquisição de máquinas e equipamentos e o desenvolvimento tecnológico relacionados à redução de emissões de gases do efeito estufa e à adaptação às mudanças do clima e aos seus efeitos. O programa se divide entre as seguintes modalidades: Desenvolvimento Urbano Resiliente e Sustentável; Indústria Verde (inclui economia circular e efeitos climáticos); Logística de Transporte, Transporte Coletivo e Mobilidade Verde Verdes; Transição Energética, Florestas Nativas e Recursos Hídricos; Serviços e Inovação Verde; e, Máquinas Verdes. Como se observa, biocombustíveis, NIB e Fundo Clima serão importantes pilares para a transição energética verde e com a qual a Trígono está plenamente conectada através das principais empresas investidas.

Quando dividimos nossa exposição setorial de todos os fundos combinados, temos a seguinte divisão: bens de capital/industriais (33%), agronegócio (15%), mineração e siderurgia (13%), açúcar e etanol (9%), financeiro (8%), petróleo e gás (5%), energia (4%), consumo e comércio (4%), papel e celulose (2%), outros (7%). Como nossos leitores observam, as carteiras estão bastante relacionadas aos temas acima abordados e com o câmbio como agente catalisador de resultados. E são empresas com baixo endividamento, muitas delas excelentes pagadoras de dividendos e com caixa líquido que se beneficiam da alta dos juros.


Prezados leitores,

Elencamos acima fatos e iniciativas de governo que poderiam ser consideradas estratégias top-down, pois têm natureza macroeconômica e de políticas governamentais. Mas, para a Trígono – que tem, já há quase sete anos (em seus fundos mais antigos), empresas que há tempos vêm se antecipando ao que agora está se tornando fato, nada disso é novidade . Toda modéstia às favas: é como se governo e parlamentares tivessem lido nossas Resenhas e atuado naquilo que defendemos há muitos anos. E não há aí adivinhação nenhuma: usamos apenas a lógica. E não se trata de programas de governo, e sim de medidas de construção de país – para além do debate comezinho e pequeno de ideologias. Temos nos fundos empresas conectadas com suas áreas de atuação e que sabem que dinheiro não é brinquedo nem nasce em árvore, apesar do agronegócio ser um importante meio de gerar riquezas ao país e bem-estar da sociedade. A mesma como um todo está ainda mesmerizada (dopada?) por essa diatribe, no mais ridícula, de polarização. Mas uma hora ela acorda. Porque tem que acordar. Não é possível.

Agricultura forte e descarbonização via combustíveis renováveis, eficientes, de baixo custo e limpos. E uma indústria nacional (em especial a automotiva) que está se adequando ao que o Brasil necessita – ao invés de trazer para cá tecnologias que aqui não fazem o menor sentido (como a eletrificação veicular). A NIB é outra iniciativa louvável – e a desvalorização de 27,5% do real ano passado terá impacto em muitas das nossas investidas e em suas cadeias de produção, tanto acima como abaixo (ampliando os benefícios setorialmente). Ainda que elenquemos fatores de natureza top-down, estes se encaixam perfeitamente nos fatores fundamentalistas (bottom-up) que trarão resultados ainda mais positivos às nossas principais investidas, com o câmbio como catalisador adicional.

Ainda sob a ótica do top-down: o governo chinês conduz ações para manter o ritmo de 5% de crescimento da economia – à revelia do que dizem os economistas descrentes. O governo japonês também vem adotando medidas para estimular o consumo doméstico e a economia. Donald Trump de volta à Casa Branca não fará por menos para tentar cumprir suas promessas de campanha. Na Europa, a inflação caminha para a normalização, com o BCE (Banco Central Europeu) relaxando os juros e tentando ajudar economias como a alemã e a francesa a reencontrarem a trilha do crescimento.


Prezados leitores e investidores,

Os astros parecem se alinhar para que 2025 seja um ano positivo nas principais economias globais, com juros em queda como estímulo. Será o Brasil como um planeta fora de órbita do nosso sistema solar? Ou estará sujeito às forças gravitacionais que equilibram o nosso sistema?

Saindo da astronomia e voltando à astrologia: um trígono se forma quando dois planetas estão distantes 120 graus entre si em um Mapa Astral. O triângulo é a representação mais precisa de um trígono (o que é bastante intuitivo) e planetas assim alinhados, para a astrologia, estabeleceriam entre si uma relação de cooperação. Para os fãs do lado mais místico da realidade, por assim dizer, há uma abundância de bons sinais: alinhamento triangular, Serpente, o número 9 e uma conjuntura global mais favorável (trígono econômico). Se nos perguntassem, diríamos que somos mais da astronomia e da ciência que da astrologia – mas, ei, nós é que não vamos dispensar um bom augúrio.

Aos nossos investidores, e a quem vier a embarcar nessa conosco: muito, muito obrigado pela confiança. Aos pessimistas: esperamos sinceramente que sejam contrariados em cada uma das expectativas negativas. E a todos nós: os sinceros votos da Trígono de que saúde, harmonia e prosperidade marquem as vidas de todos nós em 2025.

Werner Roger

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