Prezados leitores e investidores,
O mercado está desafiador. Sim, isso já ganhou ares de obviedade ululante, como diria Nelson Rodrigues. Mas clichês e obviedades não se tornam tais por serem falsos, pelo contrário.
E que verdade concreta e consequente, senhores! Mesmo para aqueles investidores profissionais, experientes, curtidos no calor das tantas correrias de mercado que já vimos da primeira fila – mesmo para esses (e me incluo entre eles), mal se pode esboçar o que pode estar por acontecer. Nunca será demais reforçar: se alguém lhe oferecer um prognóstico que diga o que vai acontecer no mês seguinte, na semana seguinte, amanhã, desconfie. E se vier com ares de guru, querendo emprestar certeza científica ao que é só chute, ignore. Ele não faz a mais pálida ideia do que vai acontecer: tudo que ele quer é que você compre o pastel de vento que ele está vendendo pelo preço daquele especial de feira (que tem carne moída, presunto, queijo, ervilha e ovo cozido).
Mas Werner, também não dá pra sair por aí investindo a esmo. É preciso algum guia. Como diria Kant, “pensamentos sem conteúdo são vazios, intuições sem conceitos são cegas”.
Ah, leitor – vemos que andou fazendo certa lição de casa. Kant, afinal, não é para quem quer Mas permita o caro leitor um ajuste em sua avaliação: nem se trata, aqui ou em qualquer Resenha, de defender ou ter defendido o “sair por aí investindo a esmo”, ou qualquer variação de um tema assim. Nem que seja porque somos investidores profissionais – e o que fazemos tem método.
A questão é: quem vai dar os conteúdos para os nossos pensamentos? Os conceitos para nossas intuições? aí tema para outra manga/Resenha. Mas voltemos a esta.
Essa incerteza toda hoje em curso no mercado pode levar o leitor a se sentir como uma “pipa dançando num furacão”, como disse o Mr. White a James Bond no filme “007 contra Spectre” (2015). Se for só para se ter uma guia a apontar algum caminho, a pior coisa que se poderia fazer seria dar ouvidos a um desses tantos sofistas modernos que pregam em Ágoras digitais. Se pelo menos fossem como Górgias, por quem Platão tinha certo respeito (e a quem dedicou um de seus maiores diálogos)… mas os tipos mais abundantes são como Lísias, , com quem Sócrates não é nada gentil no “Fedro”.
O que só nos dá ainda mais tranquilidade de ter acertado no tema para a Resenha deste mês. Vamos apresentar logo a seguir (e mais à frente um pouco, na seção de Desempenho dos Fundos) alguns insights que, acreditamos, poderão ser úteis para trazer alguma luz àqueles que não a estejam enxergando no fim do túnel (ou que acham que a que veem é a do trem vindo na direção deles).
Vamos lá.
Nossas Resenhas têm se alternado entre as dedicadas a falar sobre comportamento dos investidores e as dedicadas a temas mais técnicos, diretamente relacionados ao mercado – e à atividade dos que nele operam.
Falar de comportamento é necessário porque no mercado atuam humanos. São pessoas que tomam decisões. Por mais que se cante em prosa e verso as virtudes da IA (inteligência artificial), que haja ondas de entusiasmo por tudo que ela poderá fazer (e no ponto em que ela está é tudo só potencial), ninguém se arrisca a deixar o próprio dinheiro nas “mãos” de um algoritmo não-supervisionado (de perto) pelo cerca de 1,5kg de massa cinzenta blindado dentro do crânio.
E, gostemos ou não, as emoções entram em campo nas decisões. Não somos do tipo que acha que razão só serve para racionalizar aquilo que a emoção decide: temos uma certa veia iluminista, da Razão com “R” maiúsculo mesmo. Mas reconhecemos que as emoções têm um papel muito mais que acessório, mesmo na hora de tomar decisões objetivas (e talvez até mesmo mais ainda nessas).
Por isso, somos firmes defensores da ideia de que gerir investimentos é uma refinada combinação de ciência e arte. Investir é uma atividade que faz uso de ferramentas matemáticas que foram duramente forjadas ao longo de muito tempo. Manipular essas ferramentas também requer um treino que só a experiência longamente adquirida transforma em expertise.
Se investir fosse uma ciência – ou melhor, uma engenharia, bastaria aplicar esse ferramental matemático e pronto: de um lado você põe dinheiro, do outro pega o lucro, como, resguardadas as diferenças, naquelas máquinas de fazer salsicha dos desenhos animados. Sem parar, todos os dias, sem limites.
É óbvio que isso em nada se parece com o jeito como o mercado funciona. Há momentos em que nem toda a matemática seria capaz de explicar certos solavancos do mercado. Não há lógica que explique, desafia a própria racionalidade.
Aí é preciso tirar o capacete de engenheiro e colocar a boina de pintor (ou o avental de escultor; ou a sapatilha de bailarino; escolha o leitor a arte que mais lhe aprouver). A arte tem suas técnicas, sem dúvida: a escrita musical, as misturas de óleos e tintas, as métricas da poesia. Mas isso tudo só serve para dar forma (a melhor forma) àquilo que as musas cantam, sussurram ou gritam para o artista. Esse “isso” que o artista molda é o que chamamos de “dom”, ou “talento”. É uma intuição, produto da trilha única e inimitável das incontáveis sinapses que disparam no cérebro “artístico”.
Fica aqui também pano para outra manga ainda: se o talento é inato ou somos uma rasa ao nascer. Alguém poderia dizer que a IA já está mostrando que arte não é um privilégio de alguma criatividade humana. Ao que responderia, modestamente (eu, que de crítico de arte nada tenho), que quem já viu uma imagem criada por IA já percebeu que vai demorar até que algum algoritmo nos entregue uma nova “Guernica” ou novas “Variações Goldberg”.
E nas finanças? Dá para esperar que a IA vá ter o tixrocínio de enxergar uma oportunidade que um profissional poderia reconhecer? Os algoritmos já batem hoje os melhores enxadristas, talvez nunca mais haja um Bobby Fischer ou um Garry Kasparov; mas quem vai se arriscar a deixar a IA investir sozinha? E no dia em que ela errar? Será que a sensibilidade humana – para xadrez, artes ou investimentos – será algum dia igualada? Superada?
Mas voltemos. Não faz sentido a ideia de que artistas são só aqueles que compõem sinfonias aos cinco anos de idade (como Mozart) ou que já “apavorassem” no sapateado aos sete (como Sammy Davis Jr). Anos de prática e dedicação também fazem revelar algum talento artístico – que, potencialmente ao menos, todos nós temos. O que também não significa que, mesmo que tal talento se manifeste, ele vá gerar necessariamente obras de verdadeiro valor artístico. Basta olhar as prateleiras de qualquer livraria para ver que talento literário não é assim tão abundante.
O mesmíssimo racional pode ser levado para o mundo dos investimentos: não é todo egresso da Insead que vai virar referência de mercado. Excelentes escolas de negócios existem às dezenas pelo mundo, milhares de alunos muito bem instruídos e de inteligência muito acima da média estão nelas. Vão se tornar bons profissionais, muitos deles, sem dúvida – ainda que não haja modo nem meio de prever quando surgirá um verdadeiro “artista”.
Será que teria algo a ver com o período histórico? Pensemos na Renascença – ou, para não ir tão longe, nos anos 1960 ou 1970. Pensemos no rock, esse ritmo já um tanto circunscrito no tempo (uma vez que a juventude não se vê mais tanto representada por ele): os Beatles e o Creedence Clearwater Revival – e o Pink Floyd, para citar outra predileta da casa – são resultado da cultura de sua época, um período de revoluções sociais e comportamentais, políticas e econômicas. Foram muitas as bandas surgidas então, mas essas resistiram ao teste do tempo. Como também resistiram ao tempo a Pietá e o Davi, o Decameron e o Paraíso Perdido.
O mundo é dinâmico. As artes, também. Por que com a gestão de investimentos, arte e ciência que é, haveria de ser diferente?
Werner, suas elucubrações são fascinantes, mas acho que estão se espalhando um pouco…
Obrigado ao leitor – sim, divagamos. Voltemos.
O momento é de incerteza, nisso concordamos todos. O Brasil vive a incerteza que vem da frente fiscal. Há ainda a incerteza quanto aos resultados da eleição presidencial norte-americana. Com Donald Trump recém eleito, os impactos sobre a bolsa brasileira não estão claros. O conflito em Israel desafia toda e qualquer previsão. A guerra entre Rússia e Ucrânia também – e mais ainda com a entrada da Coreia do Norte. Esta flexiona os músculos para a Coreia do Sul, com manobras militares (lembremos que, tecnicamente, a guerra entre Norte e Sul começou em 1950 e nunca terminou). A China faz o mesmo com Taiwan. E falando em China: as medidas do governo para a economia trarão os resultados esperados? Se sim, em que prazo? E em que magnitude?
Como tomar decisões de investimentos em meio a tantas incertezas? Como enfrentar pressões, insatisfações e dúvidas num ambiente que parece à beira do caos – ou (num rasgo de licença poética, desculpas aos físicos) do entrópico (a desordem progressiva e irreversível de um sistema – tema da Resenha de outubro de 2021)?
A racionalidade deixou de prevalecer. Faz um tempo, a predominância da disfuncionalidade no mercado – em vários deles. Talvez sirva como termômetro da disfuncionalidade geral a que se observa no mercado do ouro, cujo preço vem batendo recordes. Quando todo mundo corre para o ouro como reserva de valor, pode-se imaginar que a crença nas moedas fiduciárias chegou a um atoleiro. A capacidade de lidar com a tensão se esvai, a paciência se esgota, o ânimo nos abandona, a pressa e a ansiedade tiram de nós o nosso melhor.
Aqui, acreditamos, o estoicismo tem algo a nos dizer.
Werner, admiramos seu ecletismo intelectual – mas você vai precisar nos dar uma breve explicação (breve, aqui, sendo a palavra-chave) sobre o que seja o estoicismo.
Vai ser tão breve que o leitor nem vai perceber. Vamos pincelar o estoicismo para os que dele só ouviram falar, ou nem isso.
Trata-se de uma escola de pensamento que já tem mais de 2.300 anos. Seus nomes principais incluem políticos, pessoas ricas e poderosas e ao menos um imperador. Poderosos e ricos como pudessem ser, no entanto, propunham desapego material como eixo conceitual central. O estoicismo tem inclusive ganhado certo espaço em nosso mercado editorial recentemente (como uma busca rápida no Google pode mostrar).
1. NOMES PRINCIPAIS
A στοά de Zenão de Cítio
Sua criação é atribuída a Zenão de Cítio (333 a.C. – 263 a.C.), na ilha de Chipre. O que se sabe dele chegou ao nosso tempo no registro feito por Diógenes Laércio, no volume 7 da obra Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres. O nome de sua doutrina deriva da palavra grega stoá (στοά), ou “pórtico”. Isso porque Zenão e seus discípulos costumavam andar “para cima e para baixo”, como diz Laércio, pelo chamado Pórtico de Pisianax, porque desejava “tornar aquele um lugar tranquilo”.
Zenão ensinava que viver em harmonia com as leis naturais e cultivar virtudes (autodisciplina, coragem, justiça e sabedoria) são o caminho para a vida feliz. Não se conhecem escritos dele que tenham chegado a nós, mas o livro de Laércio nos dá uma ideia muito boa do que ele pensava. Tratou ainda dos impulsos e paixões humanas; de ética, dever e lei; de natureza e cosmologia; ser e amor; simbologia, física e lógica, e muitos outros campos.
Estoicismo imperial: Sêneca
Quase 270 anos após a morte de Zenão nasce Lucius Annaeus Seneca (4 a.C. Córdoba – 65 d.C. Roma). Ficou conhecido como principal nome ligado ao estoicismo durante o Império Romano. Filósofo, escritor, político e mestre da retórica, deixou farta obra literária. O Renascimento recuperaria seu trabalho.
Sêneca nasceu em família rica. Aos 3 anos de idade foi enviado a Roma, onde seria educado. Lá, estudou oratória e filosofia e recebeu de seus diversos mestres sua iniciação no estoicismo. A aplicação aos estudos o deixou doente; foi buscar tratamento no Egito e voltou a Roma no ano 31 de nossa era (coincidindo com o início da vida pública de pregações de Jesus Cristo), onde começou sua carreira de orador, advogado e senador.
Sêneca chegou a ser exilado – para a ilha da Córsega – após criticar Calígula, e viveu grandes privações materiais. É quando se debruça sobre o estoicismo e delineia seus ideais de renúncia a bens materiais e de busca da tranquilidade da alma. Morto Calígula, Sêneca volta a Roma, então governada por Claudio, e se torna educador de Nero (sobrinho de Claudio) por influência de Agripina, sobrinha do imperador. Em 59, decepcionado com Nero, Sêneca abandona a vida pública e vai se dedicar ao teatro e ao estoicismo.
São seus clássicos “Sobre a Brevidade da Vida” e “Sobre o Ócio”. Sua obra mais profunda, no entanto, são as “Epistulae Morales ad Lucilium”, em que defende a fraternidade universal – que viria a ser adotada pela igreja cristã. No ano de 65, Sêneca foi acusado de conspirar para assassinar Nero – que o condenou (e depois se arrependeu) a cometer suicídio – seguido pela esposa – cortando os pulsos e depois ingerindo veneno na presença dos amigos. História que lembra a de Sócrates – não por acaso, um dos inspiradores do estoicismo. Ambos se comportaram de forma serena até o fim.

Imperador estoico: Marco Aurélio
Marco Aurélio (121-180) é considerado o último dos cinco bons imperadores romanos. Foi considerado o governante mais poderoso do mundo. Não era o herdeiro direto e nunca desejou ser imperador, função que sentia como um fardo. Preferia dedicar-se à filosofia, especialmente ao estoicismo, o qual estudava desde a infância.
Seu caráter e honestidade levaram o imperador Antonino Pio a adotá-lo. Como imperador, Marco Aurélio acreditava ser seu destino promover o bem às pessoas. Seu governo foi de guerras e doenças – a chamada peste antonina (a 1ª pandemia de que se tem registro) matou cerca de 5 milhões de súditos.
Apesar disso (talvez por causa disso), ele continuou a estudar filosofia. Escreveu um diário – que chegou a nós com o título “Meditações” e se tornou uma das principais obras estoicas. No livro, ele discorre sobre a forja do caráter de um bom homem e a coragem para enfrentar infortúnio e tragédias. Fala de sua ascensão ao trono – por sua qualidade e seus méritos, não por direito de sangue. Marco Aurélio talvez seja a figura mais próxima do “Rei filósofo” idealizado por Platão em “A República”.
2. PRINCÍPIOS
Do que está (ou não) sob o nosso poder
“Todas as coisas existentes se dividem da seguinte forma: as que estão sob o nosso poder, e as que não estão. Em nosso poder estão o pensamento, o impulso, a vontade de adquirir e a vontade de evitar e, resumidamente, tudo que resulta das nossas ações. As coisas que não estão sob nosso poder incluem o corpo, a propriedade, a reputação, o cargo e, resumidamente, tudo aquilo que não resulta das nossas ações.”(Epicteto – Encheiridion)
E isso com os investimentos?
Em nosso controle está: conhecer as empresas, seus mercados, executivos, conselheiros, estratégia, resultados. Com tudo isso, podemos calcular valor. O comportamento do mercado ante as empresas, que é o que determina preços de ações no curto está fora do nosso controle. Em algum momento, preço e valor se encontrarão.
Os estoicos ilustram isso melhor com a Analogia do Arqueiro. Ela diz que, para atingir um alvo, o arqueiro pode controlar diversas coisas: treinar a pontaria, escolher arco e flecha, como soltar a corda, quando disparar. Tudo relacionado ao disparo está em seu controle – até o momento em que a flecha deixa o arco rumo ao alvo. Isso é garantia de que vai acertar?
Não depende só dele. Pode haver uma rajada de vento. O alvo pode se mover. Algo pode se interpor entre a flecha ou o alvo. O arqueiro estoico aceita todos os resultados possíveis com tranquilidade – porque fez seu melhor e deixou o que não podia controlar para a natureza.
E isso com os investimentos?
Vale para o arqueiro, vale para o investidor. Este faz toda a análise, muito acurada, se posiciona. O mercado, no entanto, pode receber (ou provocar) uma rajada de vento que impede a flecha (o preço) de chegar ao alvo (valor). Mas o arqueiro tem mais flechas na aljava. Oportunidades para novos disparos virão. A flecha ainda pode atingir o alvo.
Sobre a utilidade dos princípios básicos
“A conduta não ( terá razão, a menos que a vontade de agir seja correta; pois esta é a fonte de conduta. Nem, novamente, a vontade estará certa sem uma atitude correta da mente; pois esta é a fonte da vontade. Além disso, essa atitude de espírito não será encontrada mesmo no melhor dos homens, a menos que tenha aprendido as leis da vida como um todo e tenha elaborado um julgamento adequado sobre tudo e a menos que tenha reduzido os fatos a um padrão de verdade. A paz mental é desfrutada apenas por aqueles que alcançaram um padrão de julgamento fixo e imutável. O resto da humanidade é continuamente raso e vagante em suas decisões, flutuando em uma condição onde alternadamente rejeita as coisas e as busca. (INDECISA) sem saber se há de levar ou não até ao fim os seus propósitos.
“E qual é a razão para esse jogar de um lado para o outro? É porque nada é claro para eles, porque usam o critério mais inseguro – a opinião comum. Se você quiser sempre desejar a mesma coisa, você deve desejar a verdade. Mas não se pode alcançar a verdade sem princípios básicos; os princípios abraçam toda a vida. As coisas boas e más, honestas e vergonhosas, justas e injustas, obedientes e desleais, as virtudes e a prática delas, a posse de confortos, valor e respeito, saúde, força, beleza, agilidade dos sentidos – todas essas qualidades exigem quem seja capaz de avaliá-las. À pessoa deve ser concedido saber qual o valor de cada objeto a ser classificado.”
(Sêneca – Cartas de um Estoico – Vol. 3)
E isso com os investimentos?
Vimos na Resenha Os 7 Erros do Investidor, de agosto deste ano, o papel que a virtude da paciência tem nos investimentos. Essa virtude é central em Sêneca. A vontade de agir, baseada em um julgamento adequado, traz a paz mental; já a humanidade alterna decisões (rejeita as coisas e as busca), baseia-se em opiniões comuns.
Ele destaca ainda a importância dos princípios. Como o faz Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates (uma das maiores e bem-sucedidas gestoras de hedge funds) e autor de Princípios: Vida e Trabalho.
Vejamos o que Dalio tem a nos dizer:
“Seguir bons princípios é uma forma eficiente de lidar com a realidade.”
“O tempo é um rio que nos leva adiante para encontros com a realidade.
Ela, por sua vez, exigirá que tomemos decisões. Não podemos parar nosso curso
nem evitar tais encontros. Mas podemos, sim, abordá-los da melhor maneira possível.”“Dar ouvidos a pessoas desinformadas é pior do que não ter resposta alguma.”
Que cada homem se reconcilie com sua sorte, reclame dela o mínimo possível
Chame o bom senso em seu auxílio contra as dificuldades: é possível suavizar o que é duro, alargar o que é estreito e fazer com que cargas pesadas pressionem menos severamente aquele que as suporta com habilidade.
“Nunca terei vergonha de citar um bom ditado, porque vem de um mau autor.”
(Sêneca – Sobre a Tranquilidade da Alma)
E isso com os investimentos?
Manter a tranquilidade na incerteza, sem culpa ou se arrepender, e sem tentar reverter uma situação difícil com movimentos desesperados. Não se basear no que famosos dizem por que são famosos, mas se apoiar em ensinamentos úteis, independentemente de quem os criou. Na Resenha de agosto, trazemos uma ampla bibliografia de investidores e acadêmicos que muito têm a nos ensinar.
Como manter o caráter próprio em todas as circunstâncias
“… por acaso todos os cavalos se tornam velozes? Todos os cães se tornam farejadores? E então? Se eu for naturalmente sem talento, deverei por causa disso pôr de lado o cuidado? De modo algum (…) não serei Milão e nem por isso descuido do corpo. Pois não serei Creso e nem por isso descuido das posses. Nem, em geral, deixamos de cuidar de alguma outra coisa por não esperarmos ser os melhores.”
Sobre a Ansiedade
“Quando vejo alguém ansioso, costumo perguntar: o que deseja este homem? Se ele não deseja algo que não está sob o seu poder, por que estaria ele ansioso?”
Sobre a Tranquilidade
“Aqui também é ridículo dizer ‘Sugere-me alguma coisa’. O que eu te sugerirei? Mas antes diz isto: ‘Faz meu pensamento se adaptar ao que quer que ocorra’. Pois o primeiro pedido seria semelhante ao analfabeto dizer ‘Diz-me o que escreverei quando me for proposto um nome’.”
(Epicteto – Discursos)
E isso com os investimentos?
Podemos até achar que nada temos a aprender, que chegamos ao topo.
Baixe a bola. Devemos continuar a investigar e estudar métodos ou técnicas de investimentos, se o que queremos são resultados ainda melhores.
“Quando o mercado vai reagir e subir? Devo comprar agora? Será que não seria melhor vender agora mesmo na queda e recomprar quando cair mais?”
O ansioso pensa assim. Mas não está em nosso poder alterar o mercado. Menos ainda prever o futuro. O que podemos é, quando ele chegar, dele tirar o máximo proveito – e fazemos isso, em parte, nos aproveitando da ansiedade de quem se apressou em se desfazer de excelentes empresas a preços atrativos.
Sobre medos infundados
“Mas a vida não vale a pena ser vivida, e não há limites para nossas dores, se entregarmos nossos medos o máximo possível.”
Sobre o conflito entre prazer e virtude
“Ter tudo o que se deseja não está ao poder de ninguém; está ao poder de todos não desejar o que não tem, mas alegremente empregar o que se tem”
Sobre a inconstância da Fortuna
“Pois a alma é mais poderosa do que qualquer tipo de Fortuna, por conta própria orienta seus assuntos em ambas as direções e por si própria pode produzir uma vida feliz ou uma miserável.”
Sobre o medo natural da morte
“A Fortuna não tem o longo alcance que creditamos a ela; ela não pode atingir ninguém a não ser aquele que se apega a ela. Vamos então recuar dela o máximo que pudermos.”
(Sêneca – Cartas de um Estoico)
E isso com os investimentos?
Muito investidor por aí quer comprar ações de uma grande quantidade de empresas. Isso acaba por levar investidores, fundos e gestores a espelhar carteiras nos índices. Aí, quando uma ação sobe e ele não está o investidor/fundo/gestor em questão fica com aquele mal-estar. Na Trígono, investimos em poucas e ótimas empresas. Se elas estão ou não nos índices, pouco importa. O foco é o binômio qualidade/valor. Se não está em nossas carteiras, não nos diz respeito; se outros gestores têm outras posições, isso é lá com eles; se nossas empresas não estão nos índices, azar dos índices. Nossos investimentos seguem técnicas e estudos – e quando chega a hora de colher o que plantamos, a safra é abundante.
Sorte, nos diz o clássico dicionário Noah Webster, é “uma força sem propósito, imprevisível e incontrolável, que modela eventos de forma favorável ou não para determinado indivíduo, grupo ou causa”. “Imprevisível e incontrolável” são dois adjetivos que não gostamos de ver passar nem perto de nossos investimentos. Sorte e investimentos devem ser mantidos separados – quanto mais distância, melhor. Contemos com o que recai sob nosso controle, e não com o que os deuses nos reservam.
Como dissemos em agosto, o medo de errar é um dos principais em que os investidores incorrem. É paralisante. Como disse Sêneca, deixamos de viver simplesmente pelo medo de desgraças. O medo de perder nos investimentos é uma barreira para a oportunidade de ganhar. O ditado popular diz (certamente com uma raiz em Sêneca) que quem não arrisca, não petisca.
“Costumamos dizer que não estava em nosso poder determinar os pais que nos caberiam, dados a nós pelo acaso; mas nos é possível nascer por nosso arbítrio.”
(Sêneca – Sobre a Brevidade da Vida)
“Examine com atenção seus guias interiores e indague o que evitam os sábios e o que perseguem.”
“Sempre que estiver obrigado pelas circunstâncias a sentir-se confuso, retorne a si mesmo rapidamente e não se desvie fora de seu ritmo mais do que o necessário. Quanto menos se afastar do seu estado de harmonia interior, melhor dominará esta técnica.”
“Não são as coisas que o perturbam com temor e cobiça que o buscam, mas é você quem as busca. Deixe que seu julgamento a respeito delas não seja perturbado, e não será atormentado pelo temor e pela cobiça.”
“Se alguém pode refutar-me e provar de modo conclusivo que penso ou procedo incorretamente, de bom grado mudarei minha forma de agir. Pois persigo a verdade, que nunca prejudicou ninguém. Só é prejudicial o que persiste em seu próprio engano e ignorância.”
(Marco Aurélio – Meditações)
E isso com os investimentos?
A melhor forma de se aprender a investir é investindo. A prática leva à perfeição, diz o ditado. Mas calma lá: é de dinheiro que se está falando quando se fala de investimento, assunto sério. Não se deve “sair investindo a esmo”, como dissemos já nesta Resenha. Como diz o lema iluminista: “Sapere Aude”, ou seja, “Ouse saber”. Há uma oferta inesgotável de boas fontes onde aprender, consultar e se apropriar do melhor que muitas cabeças geniais têm a ensinar sobre investir. Todo esse conhecimento torna mais fácil entender o que nós, profissionais, fazemos quando botamos a mão na massa. Na já bem citada Resenha de agosto, temos uma ampla bibliografia de grandes investidores (mestres), biblioteca básica de quem quer se aproximar desse universo dos investimentos. Sêneca e Marco Aurélio bem já sabiam: mestres nós podemos escolher (ao contrário de pais, que nos são legados pelo acaso).
Marco Aurélio foi literalmente testado no fogo da batalha. Não conseguiu conquistar a Germânia, mas parte significativa de seu período como imperador foi gasto tentando conquistá-la. Suas tropas sofreram incontáveis revezes. E a cada derrota, novos esforços eram feitos. Importante para o imperador era não se desviar “fora de seu ritmo” nem “se afastar do seu estado de harmonia”.
O cenário do mercado pode parecer a um passo do caos. É nesse momento, no entanto, que podem surgir oportunidades que, depois, podem acabar por se revelar as melhores já vistas. Podemos tirar vantagem do pânico dos investidores – o mesmo pânico que ora invadia os germânicos ao virem as legiões romanas, ora se abatia sobre os romanos ao virem aqueles tipos barbudos avançando do meio da floresta.

“Vendemos coisas de grande valor por coisas de pouco valor, e vice-versa.”
(Diógenes Laércio – Vida e Doutrinas de Filósofos Ilustres)
E isso com os investimentos?
Já há mais de 2 mil anos este princípio de preço e valor era conhecido pelos filósofos. Circula hoje em dia numa formulação ligeiramente diferente: Preço é o que você paga, valor o que você leva. Dito por ninguém menos que Warren Buffett.
Caro leitor,
Nosso passeio pela filosofia estoica mal começou – mas estamos em uma Resenha mensal sobre investimentos, não em um simpósio sobre filosofia antiga. Mal começamos a arranhar a superfície desse riquíssimo manancial de conhecimento, a nós legado por figuras maiores que a vida, cujas palavras ressoam e chegam a nós atravessando muralhas e muralhas de tempo, carregadas de sabedoria e conhecimento. É absolutamente espantoso que lições e visões da realidade de dois milênios atrás se encaixem à perfeição no mundo de hoje. Para uma realidade que incensa a inovação e tem horror à repetição e à rotina, contar com a permanência dessas ideias é um muito bem-vindo alento.
Fechemos aqui com uma última contribuição do grande Marco Aurélio – mas esta vai ainda mais longe do que o mundo dos negócios. Essa é para nos colocar para pensar mesmo, e avaliar o que estamos fazendo de nós mesmos:
“Não seja vagaroso em seus atos, confuso em suas conversas
nem vago em suas ideias. Não deixe que sua alma esteja
demasiadamente voltada nem para si mesma nem para o que
há lá fora, nem que a sua vida seja tão preenchida de trabalho
que não lhe reste nenhum momento de lazer.”
Carta do CIO
Werner Roger



